segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Useful Idiot

Vera Cruz Times
Por Cícero Esdraas Neemias e María-Guertas Abellán García

Escolheu-nos o editor para esta cobertura sobre a questão islâmica e suas consequências políticas, provadas pelo primeiro mês de governo Donald Trump.

Depois de termos o descalabro de ter que lidar com um Donald na presidência e um Mickey na vice, o choque de realidade via Twitter nos deu a certeza (que era apenas desconfiança na campanha), de estarmos diante de um energúmeno em níveis dílmicos.

Trump é uma versão yankee do obscurantismo patriótico bizarro de Rousseff. São produtos idênticos de mesma matriz populista que gerou, anos atrás, figuras como Stálin, Hitler, Mussolini, Franco, Vargas, Perón, Salazar, Che, Mao e outras porcarias consectárias que tentam se diferenciar em um socialismo pró-comunismo e um socialismo anti-comunista (diferença que, “noves fora”, só Marilena Chauí e seu ódio à classe média consegue exergar).

Rafael Correa (que se despede hoje, ao lado de seu fiel escudeiro Tiko-Tiko), Cristina Kirschner, Néstor Kirschner, Maduro, Chávez, Morales, Ortega, Lula, Duterte, Rousseff, Pútin, Bashar El-Assad, Mohammad Morsi e essa gente louca de ISIS e do exército Houthis é farinha de um mesmo saco de onde saiu o produto básico para tirar do forno e servir, no Salão Oval, essa aberração de cabelos alaranjados chamada Donald Trump.

Seu ápice de idiotice (até agora) deu-se naquele fatídico decreto que o Poder Judiciário já freou e, aconselhado, Trump desistiu. Dizem que interlocutores perante a Suprema Corte lhe trouxeram recados para que desistisse, visando evitar um vexame judicial que poderia fazer com que os próximos 3 anos e 11 meses de governo o transformassem um morto-vivo roussíffico perambulando pelos jardins da Casa da Branca (e, desta vez, sem a auto-ajuda de Paulo Coelho em mãos, coisa que só a alta nata da política yankee tem acesso).

Seu próximo ato de Declaração Universal de Energumenismo será no tal do Muro – terá ele mesmo que construí-lo, with his bare hands: ou alguém acha que a massa de pedreiros que atuam nos EUA (peruanos, colombianos, cubanos, brasileiros, nicaraguenses, venezuelanos, dominicanos, haitianos, panamenhos, paraguaios e... mexicanos, sim, eles!!!) irá mover um tijolo sequer para por em pé um muro que eles mesmos tenham parentes a cruzá-lo brevemente? Ou será que o eleitor de Dakota de Norte ou de Montana irá descer até a fronteira, a cavalo, para construir o muro para separar essa turma do Taco Bell, como se estivéssemos em uma película de John Ford refilmada por J.J. Abrahams? – A Saga do Muro (já pensaram??? estrelada por Charlton Heston, o Moisés...).

Deixando essa dúvida do Muro em suspenso (que, apostamos, não será construído por falta de mão de obra, forma simples de culpar o desemprego gerado FDR e herdado por Trump), voltemos ao tema do momento, o decreto anti-imigração.

Uma coisa é fato: todos, sem exceção, reclamaram do decreto, sem tê-lo lido e, pior, sem ter a menor noção dos efeitos, causas remotas que incluiram aqueles sete países e consequências a médio prazo (independentemente do banimento de cidadãos desses países nos EUA) das coisas que vem ocorrendo nesses países especificamente.

Um teste para você, leitor vivo, leitora espertinha: diga de cabeça quais são os sete países objeto do decreto... dizem até que há leitores e leitoras que descobriram agora que os “barrados no baile” são “apenas” sete...

Ah, pegamos você! Todo mundo reclama mas ninguém sabe de cabeça nem ao menos quais são os sete países. Voi-lá: Síria, Líbia, Irã, Iraque, Somália, Sudão e Iêmen. Ei-los.

Mas a questão não é tão simples, pois o decreto de 27 de Janeiro de 2017 simplesmente não os cita. Meramente, em referência cruzada ao INA (Immigration and Nationality Act de 1952) diz que “the immigrant and nonimmigrant entry into the United States of aliens from countries referred to in section 217(a)(12) of the INA, 8 U.S.C. 1187(a)(12), would be detrimental to the interests of the United States, and I hereby suspend entry into the United States, as immigrants and nonimmigrants, of such persons for 90 days from the date of this order (excluding those foreign nationals traveling on diplomatic visas, North Atlantic Treaty Organization visas, C-2 visas for travel to the United Nations, and G-1, G-2, G-3, and G-4 visas)”.*

* - um dado curioso da linguagem adotada pelo decreto é que a norma atinge “immigrants” e “non-immigrants”, mas não trata de “refugees”. A diferença básica entre um imigrante e um não imigrantes está na... intenção de imigrar. Um turista é um non-immigrant, por exemplo. Um refugiado não se enquadra nem em uma da categoria (pois não é imigrante) nem em outra (nem é não-imigrante). Há no refugiado a deliberada “necessidade de remoção”; não há o conceito de “vontade de imigrar”. Pelo contrário: o refugiado ou asilado tem sempre a esperança de voltar e vive sempre uma vida provisória na nação que o acolhe. E, dizem, foi com base nessa imprecisão que Trump recuou. Quando soube que o seu decreto abria brechas para refugiados, além da chacoalhada que tomaria na Suprema Corte, decidiu contentar-se com a conveniente medida do Juiz James Robart, que fez-lhe um favor.

Voltando a norma em si, veja que ao criar exceções, limites temporais da restrição e recorrer a artigos de outras leis, Trump, the useful idiot cria, na largada, uma gigantesca confusão jurídica, sobretudo porque a section 217(a)(12) do INA cita expressamente apenas Síria e Iraque e por meio de uma “linguagem jararaca” abre-se para "any other country or other area of concern" . Desnecessário dizer que ao “armar o cu pra pegar caralho”, como dizem por ai popularmente, Trump teve que emendar esse curioso decreto (que, diga-se de passagem, duvidamos que até ele tenha lido...) por meio da ajuda da DHS (aquele mesmo departamento que emprega várias pessoas nos aeroportos vestidas de uniforme azul operando scanners e cães farejadores), abreviação para Department of Homeland Security, que emitiu um fact sheet esclarecendo esse artigo do decreto trúmpico nestes termos: “For the next 90 days, nearly all travelers, except U.S. citizens, traveling on passports from Iraq, Syria, Sudan, Iran, Somalia, Libya, and Yemen will be temporarily suspended from entry to the United States. The 90 day period will allow for proper review and establishment of standards to prevent terrorist or criminal infiltration by foreign nationals”.

Sem precisar entrar no mérito, podemos convencionar que sob o ponto de vista técnico (jurídico, apenas) o decreto é de uma peça de majestosa barbeiragem.

Ele atesta que, sim, temos um idiota cercado por energúmenos na Casa Branca.

Mas a pior parte não vem do decreto – vem, sim, da incapacidade de muitos trombeteiros de plantão (e, aqui, os trombeteiros não são os aliados de Trump, mas a turma que reclama das coisas sem saber do que está falando) de, propriamente, se informar sobre o que está ocorrendo no entorno desse decreto.

Isso começa quando as pessoas (mais de 95%) não sabe de cabeça nem quais são os países e muito menos a forma com que são “mencionados” no decreto. Mais de 98% não sabe que o decreto tinha validade de 90 dias e, o mais espantoso – pergunte a qualquer brasileiro que se ofende quando um americano diz que a capital do Brasil é Buenos Aires: declare, de memória, o nome da capital de ao menos 3 desses 7 países e verás que nem nessa mini-prova de geografia o trombeteiro passa.

Agora, se você, leitor descocupado, leitora madrugadora, souber: 1. de cabeça quais são os países do Decreto de Trump; 2. como eles são “citados” e porque foram escolhidos para figurar nesse decreto (que, como já dissemos, faz tabula rasa com Arábia Saudita, Egito, Afeganistão, Paquistão, Jordânia e outros que poderiam chamar a atenção por motivos semelhantes culturalmente a Irã, Iraque e Iêmen); e 3. por fim, last but not least, quais são as sete capitais oficiais e oficiosas dos regimes “citados” no decreto – bem, então vocês nem devem continuar seguindo nesta matéria. Parem de ler imediatamente pois vocês com certeza já sabem tudo o que vai ser dito aqui e se aborrecerão. Take a pie e use melhor o tempo futuro, pois o pretérito, meus parabéns, já usastes como um Embaixador.

Mas, se você, leitor, leitora, ambos em dúvida, não sabem uma, duas ou alguma das questões acima, é melhor que siga na leitura, pois fatalmente vocês não têm informações suficientes não apenas para opinar nessa questão, mas sobretudo e muito provavelmente, sequer para votar nas eleições de 2018 que ocorrerão aqui no Brasil. Acredite, há semelhanças...

O papel de useful idiot que Trump se prestou pode ser bem estampado pelo país mais obscuro dentre os sete citados: Iêmen, ou “República do Iêmen”, em árabe simplesmente Al-Yaman ou Al-Yamaniah. É um país que tem lá seus 5.000 anos idade que não cabem ser analisados neste artigo. Cobre uma área equivalente ao dobro do Estado de São Paulo, algo do tamanho mais ou menos do Estado da Bahia ou de Minas Gerais. O último PIB é mais ou menos equivalente ao rombo da Petrobras: coisa de US$50 bilhões. Sua economia depende integralmente das reservas de petréleo, exportadas em sua totalidade e responsáveis por aproximadamente 98% do PNB e das receitas geradas no Iêmen. As reservas estão em torno de 4 bilhões de barris de óleo. Sim, essas são as reservas totais. Para se ter uma noção, o pré-sal tem algo em torno de 175 bilhões de barris. Isso, estima-se (pela velocidade de retirada dos últimos 10 anos), tornará o Iêmen no lugar mais improdutivo do mundo sem um único pingo de óleo para pagar uma das mais altas taxas de corrupção do mundo, tornando completamente insolvente já a partir de 2025. Qual seja, esse estoque deve durar não menos do que outros dez anos pela frente.

Não à toa, ostenta a incrível marca de 160º em IDH (o Brasil está em 75º e a Venezuela em 71º, apenas para se ter algum parâmetro), posto que o pior país, Níger, ostenta no 188º com um índice de 0.348 em face do 0.498 do Iêmen (Brasil tem o seu consolidado 0.755 e o primeiro colocado, Noruega, 0.944 dentro de possíveis 1.000). Já o índice de percepção da corrupção deixa o Iêmen em 170º (dentro de um quadro de 176 países analisados) ostentando a marca invejável de 14/100 pontos (a Dinamarca, país menos corrupto do mundo tem a marca de 90/100 e o Brasil da Petrobras está 79º com 40/100 empatado com China e Índia, colocando boa parte dos BRICS como exemplos de corrupção moderna para todo o mundo).

Voi-lá: sua capital é Sana’a, retratada no jogo Uncharted 3 e usada por Pasolini para filmar o seu clássico Decameron, de 1970. O bairro da Cidade Antiga de Sana’a, onde ficam os portais do Iêmen, o Bab-al-Yaman, é considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. Apesar de tantas coisas, pergunta-se, como o Iêmen foi parar nessa “lista do ódio de Trump”? A dúvida apenas revela que o Iêmem é de fato e com acerto, talvez um dos lugares mais uncharted do planeta e da história.

E neste ponto, é difícil escapar da história e podemos pular ao menos uns 4980 anos para nos concentrarmos nos 20 últimos, que é quando a coisa “degringola” de vez para o estado atual.

Durante muito tempo o Iêmen foi um quintal do Império Otomano. Diga-se, aliás, de passagem, que os sete países do decreto do ódio de Trump fizeram parte desse Império por séculos (incluindo os países africanos do decreto, como Somália, Sudão e Líbia). Em 1908, uma espécie de tataravó da Primavera Árabe, uma tal de Revolução dos Jovens Turcos deu início a tudo. Essa revoluceta desaguou numa certa dissolução do Império, que anos mais tarde alçou ao cargo máximo na Turquia um tal de Atatürk, em 1923, que tinha um discurso secularista, nacionalista e anti-califa que alimentou boa parte da campanha da recente Primavera Árabe, mesmo sem que citassem uma linha dos discursos de Atatürk. Na contramão de Atatürk, a turma fundamentalista e pro-califado, que acabou se escafedendo das imediações de Istambul e foi fincar bandeira na Síria e na Arábia Saudita.

E o Iêmen com isso?

Saindo o Império de cena, cada um ficou ao seu léu e não demorou para que os resultados da I Guerra incidissem não apenas sobre os Balcãs, mas também sobre aquela parcela do mundo que estava, digamos, “sem dono”. Surge nessa época o Iêmen do Norte. O resto do território foi chamado criativamente de Iêmen do Sul, embora no mapa ficassem meio que lado-a-lado. Eram vizinhos, tendo o Iêmen do Norte na porção oeste do atual território (incluindo a capital Sana’a) e o Iêmen do Sul na porção leste, qual seja, no “resto do território”. Essa situação bizarra (que nos lembra bem das aulas de geografia para o vestibular que fomos obrigados a prestar em fins da década de 1980) não tinha muita explicação clara, exceto pelo mais puro e simples ato de abandono por parte dos turcos. A história do Iêmen aquela altura seria como se o governo brasileiro atendesse à recomendação do jornalista Diogo Mainardi e passasse a cobrar o cavalo da Bolívia abandonado o Acre a divisões que o levassem a ser partilhado entre Acre do Sul (capitalista) e Acre do Norte (comunista). Essa mania estava em voga no mundo nesses recônditos de miséria: foi assim na Coreia, foi assim no Vietnam, foi assim no Camboja mas não foi assim na Irlanda!

Coreia, Vietnam, Camboja, Iêmen (e se assim fosse na devolução do cavalo, possivelmente teria ocorrido o mesmo com o Acre): ex-colônias improdutivas que vivem de dois produtos ótimos para recônditos afastados do mundo – ignorância e cargos públicos. Populistas de direta, atraídos pela ignorância, levaram a porção norte enquanto que os populistas de esquerda, atraídos pelos cargos públicos e pela corrupção (esta sim, a única que foi dividida de forma irmanada entre esquerdistas e direitas de oportunidade), ficaram com o Sul.

A “unificação” veio na década de 1990 e o Iêmen virou um país só: juntou de novo ignorância, corrupção, populismo, militarismo e cargos públicos em uma só nação e assim instituiu uma ditadurazinha populista parecidíssima com o que Trump quer fazer nos EUA. Alguns comunistas ficaram tristes com a divisão do butim e deram início a um movimento separatista criando novamente o Iêmen do Sul, país não reconhecido nem por parte de quem os criou. Mas isso apenas traz mais tempero a uma feijoada árabe-muçulmana que ficou pronta em fevereiro de 2011 e tomou o nome de Primavera Árabe (na versão iemenita, foi a Revolta do Iêmen).

No período pós-unificação, guerra civil estourada por movimentos de esquerda, que fizeram coalizões políticas de conveniência com grupos como Al-Qaeda e os xiitas Houthis, traziam separatismos de coalizão apenas para azucrinar e bagunçar o poder central, que estava, há 30 anos, nas mãos da família Saleh, liderada pelo velho Abdullah, que já preparava Ahmed, seu filho, para herdar essa ditadura de coalizões.

Abdullah Saleh governou o Iêmen assim, digamos, como fez o PT no Brasil ao longo dos últimos 13 anos – coalizões com pequenos grupos garantindo a eles um pedaço do butim em troca de “estabilidade política”, que era gerada e gerida na base do velho “toma lá, dá cá”. Saleh se marketeava como o artífice dessa estabilidade e pregava que sua ausência poderia levar o país, que já estava no fundo do poço da economia (desemprego, inflação, corrupção), a um caos político e bélico sem controle (mágica que só ele sabia realizar). Tentou fazer-se monarca, uma espécie de Caesar do Iêmen, presidente perpétuo cuja sucessão seria por ele conduzida e o sucessor, por ele indicado e nomeado. Tudo por meio de uma emenda constitucional que o declarasse uma espécie de califa secular.

O passo maior que a perna rumo a perenização pelo poder (e com um discurso em prol do povo) deu a quem já estava de saco cheio dele, o argumento faltante para tirá-lo.

Ao olharem para o não tão vizinho (mas ex-parceiro de Império Otomano) Egito e o menos vizinho ainda Tunísia, resolveram os iemenitas ir para as ruas naquele fevereiro de 2011 e, ao contrário de protestar contra aumentos de centavos nas tarifas de ônibus, focaram as reclamações em Saleh e na sua tentativa bizarra de se tornar o Caesar do Iêmen. A esses protestos agregou-se geral insatisfação pelo modus operandi de Saleh no governo, identificado como a causa da pobreza geral, da corrupção exorbitante, do desemprego altíssimo. Em um dia, reuniram em Sana’a 16 mil manifestantes, sendo 10 mil oriundos dos bancos escolares da Universidade de Sana’a. A parte curiosa deve-se a outro modus operandi, neste caso, dos manifestantes. Sabe-se que a Primavera Árabe foi coisa das redes sociais, mas no caso do Iêmen o word of mouth (convocação boca-a-boca) e as convocações fora de foros eletrônicos públicos (qual seja, o uso do SMS, do email e de outros modos fechados de convocação) fez alguma diferença em relação à Tunísia, onde o Facebook e vários blogs abertos a toda a comunidade foram usados com maior extensão. Explica-se assim: o grau de liberdade dos tunisianos e o menor risco de patrulhamento permitiu-lhes uma divulgação muito parecida com as usadas nos protestos brasileiros de 2013-2016. Já a possibilidade de patrulhamento pela ditadura Saleh fez com que as convocações ocorressem pelo mesmo modus operandi do ISIS e do Al-Qaeda: word of mouth combinado com um certo assédio privado eletrônico (via Inbox, email, SMS, mensagens instantâneas e assim por diante – nada aberto nem público).

Enfim, após dias de protesto em rua, incluindo uma convocação para o “Dia de Fúria”,que ocorreu em 3 de fevereiro de 2011 por intermédio da convocação de ativistas de esquerda e levou 20 mil pessoas a um confronto aberto nas ruas de Sana’a, o “nós contra eles” teve Saleh ao centro. Os partidários de Saleh confrontaram-se com os seus adversários, que dentre eles contavam com excluídos de esquerda, democratas, membros do Al-Qaeda, xiitas Houthis e toda a colcha de retalhos de excluídos do regime Saleh. Bem que ele tentou um “toma lá, dá cá” absoluto, mas inevitavelmente o estado depreciado da economia deixou muita gente de fora, convidando-os ao antagonismo. Ao fim de dois ou três meses os protestos passaram a ser quase diários e contar com uma média de 100 mil pessoas de várias origens e motivações que se uniram contra o “fantasma da corrupção e do desemprego” encarnado em Saleh, o ditador da hora.

O resultado? Sim, Saleh caiu e essa turma de opositores (incluindo do “PMDB”de lá) subiu para partilhar o butim. Mais uma vez, não foram todos que conseguiram meter a mão no pote de mel e muita gente acabou ficando de fora. Mas a parte interessante é quem subiu para assumir a sucessão de Saleh.

Neste pormenor, parte das discussões na Primavera Árabe que ficaram ocultas e subliminares diziam respeito diretamente ao limite a liberdades que eram clamadas nas ruas: direitos das mulheres, liberdade religiosa, secularização do Estado, transparência – enfim, tudo aquilo que para muitos já é assunto de dar sono, lá, ainda, era tema de tirar o sono. O imporante era unir-se contra o “inimigo comum”, Saleh, ainda que isso implicasse em promover passeatas junto de black blocs do ISIS e do Al-Qaeda.

Do outro lado, o ditador Saleh fez igual Dilma Rousseff: culpou Washington por sua queda e vaticinou o “quanto pior, melhor”. Disse, várias vezes e com todas as letras, que os EUA estavam por trás de tudo para poder ficar com as riquezas do Iêmen (sem pensar que um capitalista, antes de estudar se ter riqueza, faz uma conta básica sobre os custos de acesso a essas fortunas que só Saleh enxerga).

A Primavera Árabe trouxe várias consequências, muitas todas ainda mal conhecidas e mal estudadas, dentre elas o chamado Inverno Árabe.

O Inverno Árabe atingiu países como Iêmen, além de Sudão, Iraque e Síria e, em parte, o Egito, mas não a Tunísia, o Marrocos ou a Mauritânia, por uma razão comum.  Somália, os EAU e a Arábia Saudita, por outra, também não tiveram Inverno Árabe. Notem que alguns países com causas comuns constam do decreto do ódio de Trump, outros não, enquanto que as causas da Somália ainda oscilam entre o grupo em que está técnicamente inserida e o grupo de que fazem parte Iêmen e Síria. Mas ao fim e ao cabo, esses grupos partilham a mesma causa de ter tido ou não o Inverno, muito diferente do grupo da Tunísia.

No grupo de Arábia Saudita, temos uma ditadura monárquica das mais violentas já vistas, cujos protestos foram abafados sem ter gerado qualquer efeito político por puro e simples uso da truculência.

Já a truculência não foi suficiente no caso do grupo envolvendo Iêmen (pois gerou a queda do regime) e não foi a solução apresentada no caso de Tunínia, onde tivemos mudança de regime seguida de novo governo democrático e razoavelmente estável, com ausência total de qualquer traço de truculência por parte do Estado contra os protestantes. A diferença principal está pois na ausência, em face das Primaveras promovidas nos países pertencentes ao grupo da Tunísia, de uma certo Inverno Árabe ou de um abafamento por meio do uso da força bruta. Neste e no caso anterior, a Primavera Árabe gerou violência, no caso do grupo Tunísia-Marrocos-Mauritânia, não houve violência: nem prévia, nem posterior nem concomitante. O grupo liderado pela Arábia usou de uma espécie de “violência a priori” e matou qualquer efeito no ninho. No caso iemenita a violência foi posterior, assim como se deu na Síria, uma vez que o estado, mesmo tentando ter lançado mão da violência, não o fez de maneira tão eficaz quanto Arábia Saudita, por exemplo.

Inverno Árabe, especificamente no contexto das Primaveras Árabes (caso do Iêmen), significa que os protestos das Primaveras geraram um estado de caos político com violência generalizada e institucionalização do terror como método de busca da estabilidade e administração dessa transição que dura até hoje. Algo muito parecido com o que fez Mao na China pós Chiang.

E a diferença básica que levou uns ao Inverno e outros ao Verão está justamente na base da sociedade de cada um desses países árabes: uns, do grupo da Tunísia, possuiam a chamada classe média bem solidificada; outros, como o Iêmen, não.

Essa coisa que tanto ódio gera em Marilena Chauí e seus seguidores petistas está no centro de todas as explicações para os Invernos Árabes que se seguiram a certas Primaveras.

A ausência de uma classe média estável no Iêmen abriu oportunidades para que os vários grupos elevassem seus conflitos tribais a um nível nacional, muito facilitados pela estabilidade sedimentada na ignorância. A lei do mais forte imperou e o grupo dos xiitas Houthis ganhou muito espaço na disputa pelo poder no Iêmen. Como rebeldes e defensores de “tradições”, inseriram o país na guerra mais sangrenta travada no mundo atualmente (mais sangrenta, inclusive, do que a guerra na Síria ou nos Morros Cariocas). Por ser uma terra de posição geográfica privilegiada (acessá-la depende integralmente de atravessar a península arábica ou navegar pelos “tranquilos” mares da Somália, onde temos cemitério de navios e piratas nada amistosos ou ainda tentar aportar via mar da arábia), os grupos ISIS e Al-Qaeda se uniram para eleger o leste do Iêmen (antigo Iêmen do Sul) como uma espécie de estância de férias da turma dos turbantes negros. Xiitas Houthis, de outro lado, aliados com ex-aliados de Saleh brigam contra o sucessor de Saleh, os governistas representados pelo presidente confirmado Hadi (era um vice de Saleh que foi confirmado por 99% dos votos em eleição direta confirmatória).

Hadi, nesse período, já renunciou e já chegou a renunciar à renúncia; terroristas do ISIS em companhia de turma do Al-Qaeda dizem que os mandatários são eles enquanto os Xiitas Houthis dominam a maior parte do território e, pelo respectivo lado, fazem também suas declarações de “quem manda nessa porra somos nós”. Houthis, por outro lado, se entendem bem com o ISIS, pois bebem da mesma fonte: a Irmandade Muçulmana, uma espécie de TFP Muçulmana que existe por lá e foi fundada no Egito desde que o Império Otomano abandonou essa periferia toda (idos das décadas de 1910 e 1920). Esse abandono levou grupos a uma volta a um passado inexistente de glórias inventadas (coisa bem populista) e com forte viés nacional-socialista com tintas carregas de jihadismo e anti-americanismo. Esse grupo chamado Irmandade Muçulmana já foi considerado grupo terrorista (aliás, muitos ainda o consideram), mas fato é que na Primavera Árabe egípcia a IM teve papel central. Sem muito se importar com as vozes da IM que pregavam coisas bem estranhas e impunham muitos recuos em liberdades parcamente conquistadas, a ideia do inimigo comum Mubarak que precisava ser derrubado no Egito acabou por dar mais voz à IM que o simplesmente imaginável. No fim da Primavera Árabe egípcia, a IM tornou-se um partido que, curiosamente, elegeu o sucessor de Mubarak: Muhammad Morsi, do PLJ (Partido Liberdade e Justiça, a versão partidária da IM).

A IM ainda deu subsídios e doutrinas para outros grupos como os Houthis iemenitas e, bingo, o ISIS, atualmente presente no Sudão, Iêmen, Iraque e Síria. ISIS forma um estado autodeclarado califado e faz um discurso neo-anti-Atatürk com voltas a um passado que nunca existiu consolidando o jihadismo e o terror como ferramenta política.

Morsi caiu em 2013 e a IM e o PLJ voltaram à margem por mãos da Suprema Corte Egípcia, mas o estrago já estava feito, sobretudo longe da jurisdição egípcia: Síria, Iêmen, Iraque e Somália já bebiam do fel amargo espalhado pela doutrina jihadista da Irmandade Muçulmana.

Pois é – de fato, o Iêmen não é um lugar fácil de entender e de sua complexidade podemos intuir que não é uma terra com flores que se cheirem. Isso não dá razão a Trump, de modo algum.

O torna, de fato, um useful idiot.

Faz-nos pensar no mérito dessa decisão, a respeito de um país ser obrigado ou não a receber pessoas que portem documentos emitidos por um governo difícil de compreender e abarrotado de problemas de legitimidade.

É fato que o Iêmen, ao lado da Coreia do Norte, é um dos países mais fechados do mundo. Seus cidadãos não são permitidos a sair do país e, entre nós, nem tem por onde (basta olhar o mapa da região e ver que literalmente, não tem para onde correr).

Se os “cidadãos de bem” estão todos presos nas mãos de gente louca, o que me garante, aqui no Brasil, que a pessoa oriunda de um país como esse, portando um documento emitido pelas “autoridades desse país”, entra por eles “autorizada” e sem alguma “missão de governo” que nós, daqui, não conseguimos controlar?

É muito, muito, muito complicado o todo que envolvem os conflitos nesses países citados no decreto e, como dito, tudo o que os separa da Tunísia e a inexistência de uma classe média que Chauí tanto odeia.

Essa classe média freou a violência como consequencia dos protestos primaveris e onde ela não estava presente, imperou a violência pois na derrubada do inimigo comum, libertários e ditadores se uniram sobrando, sempre para estes, pedaço maior do butim.

Macri fez o mesmo que Trump na Argentina e contra outras nações e ninguém esperneou tanto quanto em relação a Trump.

O decreto de Trump não resolve o problema no Iêmen, mas deveria ao menos torná-lo evidente, o que também não está acontecendo, seja por culpa da imprensa, seja por culpa dos reclamões de plantão.

Seguimos a nossa Primavera Brazuca com características muito parecidas – achamos o inimigo comum, o culpado pelo desemprego, pela corrupção, pelo autoritarismo burocrático de cunho stalinista-maoista e a derrubamos. Mas na derrubada, abrimos espaço para Bolsonaro e Ciro Gomes, que fatalmente disputarão um segundo turno em breve no Brasil. São os nossos Morsis e Hadis de plantão.

Acreditamos que nossa classe média talvez seja tão qualificada quanto a da Tunísia, mas há ainda aquela dormência no corpo político gerada pelo peso da barriga (que gera certo formigamento nas nádegas) do MDB.

Trocamos aqui um bando de amadores na arte do roubo por verdadeiros profissionais, os únicos e derradores criadores do “toma lá, dá cá” e rumamos para o nosso Inverno Brazuca a passos de tartarugas do Projeto TAMAR.

Talvez não nos tornemos um Iêmen por faltar em nós uma Irmandade Muçulmana que alimente o PCC, o CV, o ADA, o FDN, o TC e as demais siglas do terrorismo brazuca que ainda carece de um “motivo político” para o seu respectivo terrorismo.

A esquerda tem se esforçado em dá-lo, vitimizando a turma das rebeliões como se o Carandiru tivesse sido tão ontem quanto a queda de Rousseff. Doutra banda, grande passo andou dando o STF ao criar um mecanismo de financiamento público para essa turma: as condições degradantes do Estado serão ótima fonte de renda (estatal) para esse grupo privado de ações públicas e, agora, definitivamente de cunho político, dado de bandeja pelo STF.

Sim, meus senhores, o Iêmen é quase aqui e o Brasil está quase lá.

A propósito, a capital da Somália é Mogadíscio, da Síria é Damasco, do Iraque é Bagdad, do Irã é Teerã, da Líbia é Trípoli, do Sudão é Karthum e do Iêmen pode ser Sana’a, Aden, Al-Mukala ou Tarim, dependendo de quem você acreditar (se no ISIS, no Al-Qaeda, nos Houthis, na turma de Hadi) – se der muitos ouvidos aos críticos que não leram este texto, pode até ser que você acredite que a capital do Iêmen é... Brasília!



domingo, 19 de fevereiro de 2017

Trash Patrol

Caderno de Assuntos Menores
por Eugênio Villas

Esta semana, a patrulha da imundície mais uma vez ocupou seus horários de escovação dental diária para se incomodar com o lado faxineiro do Prefeito Dória.

Espantaram-se que a varreção, por outro lado, apresentou-se nas estatísticas com uma certa diminuição do lixo recolhido neste primeiro mês de prefeição.

Ora, ora..., estatística séria tem que ser baseada num espaço amostral ligeiramente maior. Dizer que o recolhimento do lixo diminuiu 3% no período de férias escolares dá vários indícios de outras coisas que não querem dizer... ABSOLUTAMENTE NADA.

Em primeiro lugar, recolhe-se menos porque nessa época os porcos de plantão vão jogar lixo no litoral e, sendo jogado menos lixo nestas bandas, recolhe-se menos produto dos hábitos de imundície dos paulistanos, que vão exercitá-los no litoral. Não precisa ser muito esperto para notar porque no mês de janeiro o volume de lixo é menor gerando, portanto, uma quantidade menor do lixo recolhido.

Há também, depois, em segundo lugar, as próprias férias escolares. Aluno, seja da rede pública, seja da rede privada, é um protótipo de Brasil perfeito e em fase de acabamento: literalmente "caga e anda" - enquanto vai andando, joga papel de balinha, espalha farelos, pisa em merda de pomba e esfrega a sola na parede (isso sem falar nas estalactites de muco nasal, vulgo "catota" sob as carteiras e mesas nas salas de aula). Os mais conscientes fazem ainda campanhas de sustentabilidade e de reciclagem, com recolhimento consciente de resíduos e outros palavrórios bonitos para um mesmo resultado: LIXO. Em uma um outra situação, as escolas deixam de contribuir com a sua parcela de lixo a ser recolhido.

Bottom line, entra aqui a cultura popular, que já foi usada para explicar responsabilidade fiscal: medimos a eficiência de uma faxineira em nossas casas não pela quantidade de sacos de lixo que ela coloca no latão central do prédio, mas sim pela quantidade de lixo e sujeira que fica. Pouco me importa se ela ou ele "recolhem o lixo" 6 vezes por dia, sempre sobrando em casa um ou outro casco de refrigerante em meio às migalhas do café da manhã; ao passo que se a casa está sempre limpa e "nos trinques" quando o recolhimento se dá 1 vez ao mês, intrigo-me com a mágica da eficiência: de duas, uma - ou o funcionário joga lixo pela janela e varre sujeira para baixo dos tapetes ou no primeiro caso dos 6 recolhimentos diários ainda gerando resultados negativos de lixo em mesa, temos ai um caso de porquice contumaz de minha parte.

Aproveitando esse último gancho lógico, mais uma vez o paulistano ao reclamar do lixo que diminuiu por causa do volume que se joga bem menos durante o mês de janeiro, dá a prova documental de que um povo porco esquerdo-chauvinista.

Mantenho a dica: tomem banho que essa implicância passa e aproveitem para usar esses momentos de implicância para aumentar a quantidade de exercício de escovação dentária diária.

A saúde de todos agradecerá.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Politicamente correto

Caderno de Assuntos Menores
por Eugênio Villas

Outrora reformulamos o nosso politicamente correto e passamos a excluir aquelas minorias de sempre das charges, programas de humor e músicas de carnaval.

Pronto - assim resolvemos o problema do preconceito no Brasil!!!

Tiramos uma minoria e colocamos outra no lugar, um outro esteriótipo, para dizer que contra esses a "zoeira" está liberada.

Carecas, se cuidem - vocês são todos uns ladrões, pederastas, cornos, tarados, malvados, demoníacos, paus-pequenos, filhosdaputa desonestos!


A calvície é, nestes tempos do politicamente correto em prol daquela fila toda de esteriótipos, um traço gravíssimo de canalhice, um elemento perigosíssimo de desvio de personalidade.

Não há careca bom!

A maldade e a desonestidade são calvas.

E como noticiou Millor, teria dito a ele um careca "que a peruca é algo que nunca teria lhe passado pela cabeça" (cabeça dele, careca... ou seria pela cabeça de Millor, que também era careca e desonesto como o nosso colunista Cícero?).

E salve a Cabeleira do Zezé, seja ele o que é ou não!!!













Honesto

Caderno de Política
por Cícero Esdras Neemias

Ser honesto, diziam os latinos, equivalia a manter um "estado permanente de honradez". Honestus, a, um, declinou-me o Prof. Pinto Cançado, explicando que a palavra vem de honor/honos + est: honos est, honestus. É honrado, seria esse o significado de honesto.

Agora, tentar entender o que seria honra é exatamente onde mora o nosso problema, Brasil.

Quid honor?

Não sabemos ao certo - algo entre "orgulho" e "ostentação"; um "micro culto à personalidade de alguém menor", uma pessoa "homenageada", alguém que carrega "glórias", enfim... tudo isso. Na origem, não teria a ver com "não roubar", mas lá na época de Cícero (o Marco Tullio), era impossível atingir "glórias" roubando.

Hoje não se sabe.

O Brasil não sabe a titubeia.

A essa palavra vem sendo dado um novo sentido. Esse sentido nasce de um bordão de nossos tempos, repetido à exaustão até pelos seus adversários políticos: "Dilma é uma mulher honrada".

Com isso, a palavra honra ganha nova semântica e gruda na pessoa de Dilma tal qual merda em tamanco: parece ser automático associar "honra" a Dilma (mulher honrada).

Há ainda quem complemente dizendo se tratar de uma "Presidenta Honesta", o que, como vimos, pode dar no mesmo (honra a honestidade são semanticamente a mesma coisa, já nos mostrou Pinto Cançado).

Para pensar no termo e tentarmos identificar se essa é uma característica de nosso país e de nosso povo, precisamos, em primeiro lugar, deixar Dilma de lado e promover o seu impeachment até desta discussão (é impressionante a capacidade, muita vez inconsciente, que tem Dilma Rousseff de atrapalhar em todas as coisas que seu nome está envolvido!).

Para os latinos a glória se atingia por meio de "feitos" (trabalhos, ou, como diria HESÍODO, erga, ergói). Além dos "feitos" em si, seus efeitos - deveriam atingir apenas terceiros; algo altruísta. Para além dos efeitos dos feitos, temos também as características negativas - não "pecar", qual seja, não roubar, não matar (a troco de nada), não fazer maldades, não ser injusto, glutão, luxurioso, vaidoso e não agir de outra forma que não seja reta. Samurais tentaram séculos depois consolidar isso tudo em um Código, bem anterior ao BGB e o Código de Napoleão.

Nessa toada, guardar todos os aspectos negativos e não trabalhar não faz do homem (ou da mulher) alguém honrado, honesto. De outro lado, trabalhar à exaustão mas falhar no resto também não faz do indivíduo (ou da "indivídua") propriamente honesto - temos ai um grande correligionário do PT que não nos deixa mentir: Dr. Paulo Salim Maluf, que sempre foi reconhecidamente um work-a-holic mas, em relação aos outros quesitos, parece ter falhado (embora como ele mesmo diga, são apenas conjecturas não transitadas em julgado). Dona Dilma, nos poucos momentos em que trabalhou, poderia ter se habilitado à medalha da honestidade, mas quando foi injusta, maldosa, trapaceira (ah, na campanha de 2014 ela foi um pouco sim...) e gritou com subordinados a troco de nada, teve sua petição de honestidade indeferida no Olimpo.

Tecnicamente Dilma não é honesta, convenhamos.

Em outras palavras: semanticamente falando, Dilma não é uma mulher honrada. Ponto.

Sim, outros certamente também não o sejam, de Dom Pedro I a FHC: a diferença é que nenhum deles se avocou esse título. O máximo que faziam (ou ainda fazem) é invocar a cláusula do "nada que me desabone", algo que FHC abusou à exaustão enquanto fez a defesa de Lula perante o juiz Moro.

Mas a preocupação na verdade não reside na acepção pura da palavra honesto, segundo os latinos, gregos, troianos, franciscanos ou beneditinos - reside propriamente na sua acepção para os brasileiros.

E bem sabemos, o brasileiro é um troço complexo: dá jeito em tudo; tudo em suas mãos fica relativo, subjetivo, "vai de cada um", "depende do caso a caso" e outras malandragens que permitem violar algum requisito da acepção pura de honestidade (ocasionalmente ou frequentemente) e mesmo assim manter-se (perenemente ou substancialmente) dentro do conceito de honesto.

Na acepção pura, NENHUM BRASILEIRO É HONESTO. Nem eu, nem você, leitor.

Mas ninguém vai lá e assume, entende?

Todos reconhecem que o brasileiro na média é bastante desonesto, menos eu. Eles, brasileiros, são; mas eu não me identifico e acho que meu problema é causado por todos eles.

Tenho lá minhas faltas, aqui ou acolá, mas, quem nunca?

Somos todos Marias Madalenas da honestidade, Santa que só no Brasil recebe mais preces em casa e figura na praça e na Igreja sempre atrás da Nossa Senhora, essa sim um símbolo de honestidade.

Nem adianta, leitor, vir com esse papo furado de que isso é discurso de "síndrome de vira lata" - você sabe, eu sei, todos sabemos (no auge de nossa desonestidade intelectual e aqui, na Imprensa, fazemos a MECA da desonestidade intelectual) que a nossa desonestidade é muito valorizada; é até uma de nossas virtudes - somos flexíveis, maleáveis, damos jeitinho, ops, digo, temos solução para tudo, o Brasil é o país do "no brain", aqui não tem problema, somos alegres (alguns bobos-alegres), levamos tudo na boa, com leveza, nossa falta de pontualidade é um traço de nossa cultura meiga, alegre, brincalhona...

Mas quando um estrangeiro nos escancara e diz que somos patéticos (no sentido casto do termo, de pathos mesmo), nos enfurecemos (confirmando que somos patéticos). Se dizem que somos desonestos, dizemos que os americanos também são, ao seu turno, e assim por diante.

Nunca dizemos - sim, nós somos honestos; yes, we are honest people.

Porque sabemos que não somos.

No momento em que escrevo isso estou, na verdade e ao estar escancarando a verdade (papel da imprensa), sendo um grandessíssimo filho da puta desonesto.

Lavando roupa suja em casa, até assumimos entre nós que por aqui a honestidade é como neve no verão - dizem que já houve lá no Sul algum dia, talvez em São Joaquim, mas ninguém se lembra como foi nem quanto tempo durou.

Fato é que somos bando de filhos da puta desonestos.

Todos nós.

Até quando dizemos que Dilma é desonesta estamos sendo paradoxalmente desonestos ao usar parâmetros de desonestidade para ela que de fato não nos atinja.

E para colocar a cereja do bolo na nossa desonestidade, culpamos a colonização.

Dizemos que a colonização portuguesa é a origem de tudo, que a desonestidade e a filhadaputice foi algo cuidadosamente exportado pelos degredados e barões portugueses, que ao perderem o passo da história em 1585, se dedicaram a plantar árvores de filhadaputice no lugar do pau-brasil que era arrancado e que os que aqui ficaram, tendo se alimentado dos frutos dessas árvores plantadas pelos portugueses, ficaram assim, todos uns filhos da puta desonestos.

Tirando esse mito de origem deste texto, sobram os portugueses que vinham aqui... trabalhar!

Qualquer um com um olho que funcione e uma orelha que escute pelo menos 30% saberá que os portugueses são um símbolo de trabalho e seriedade. Todos sabem que os portugueses (desde o portuga da padaria ao Abílio Diniz) é gente que se acorda as 5 da manhã para trabalhar vai dizer que está atrasado. Acordam as 3 ou 4 e só vão parar lá pela meia noite.

Não titubeiam, não tergiversam, não dão "bom dia pra cavalo".

Isso fez com que Portugal fosse hoje um dos países com um dos melhores padrões de vida do mundo. Baixíssima incidência de corrupção, quantidade quase nula de escândalos e crises políticas, baixíssimo índice de roubos e furtos, carga judicial e exposição de conflitos quase nula. Ostenta ainda um dos índices mais baixos de homicídios no mundo e tem um "Estado de Bem Estar Social" dos mais equilibrados do planeta, mesmo em situação de crise econômica como a que vem enfrentando desde 2008.

Mesmo mergulhado na crise econômica o português não deixou de trabalhar e nem passou a roubar; não começou a matar, pilhar, saquear ou fazer greve. Ante a crise o português... trabalhou.

Sim senhores - foi esse mesmo povo que nos colonizou e as lições que deixou, parece, não aprendemos nada.

O outro lado da moeda, o negro, já sabemos - esse trabalha mesmo! E na origem (que mantém até hoje boa parte de suas origens), roubar não é um caminho permitido.

Algo aconteceu em nosso mito de origem, talvez essa árvore da filhadaputice que nos alimenta até hoje e faz isso ser o que é.

Dilma é mulher honesta porque achamos que somos honestos, em nossa forma de tratar a honestidade ao nosso modo.

Querem ver?

Já fizemos a matéria do guarda carros, mas essa semana o nosso repórter fotográfico Sebastian Salé flagrou no trânsito de SP algo mais comum do que homem vestido de mulher em bloco de carnaval - "silver tape" na placa do carro para barrar multas.





O repórter flagrou com a câmera apenas um veículo, mas na ocasião tínhamos nesse entroncamento exatamente 7 veículos usando a técnica.

Basta dar um giro nas Marginais de SP que você verá motos, caminhões, carretas, táxis, veículos corporativos e carros de particulares, todos lançando mão dessa forma de resolver as restrições que o Estado impõe mas que, para esses, não valem pois vão justificar que estão trabalhando e portanto, se é feito em nome do trabalho, o ato passa a ser honesto (algo como o Zé Dirceu dizer que "roubava para a causa", diferentemente do Maluf que "roubava pra si mesmo"). Isso torna esse motorista um trabalhador brasileiro da mesma forma que o Zé Dirceu se tornou Herói do Povo Brasileiro (isso me lembra um dos bordões do Capitão Fábio: "meu ixquema é honexto!!! eu nunca subi morro pra pegar arrego do tráfico!! honexto!! ixquema honexto!!!").

Mas não é só esse trabalhador. Há outros também.

Há uns que gostam de pintar de preto as informações de data de vencimento, peso do conteúdo ou o preço por quilo de produtos perecíveis como peixes...

Vender peixes fora da data de vencimento e omitindo o valor do preço por quilo, nesse caso, torna o indigitado vendedor honesto pois está trabalhando e o que determina se o peixe está bom ou não está bom, não é a data de vencimento inventada pelo governo, mas sim a condição especial desse peixe que demora um pouco mais que os outros para apodrecer. E olha só, jogar comida fora é pecado!!!

 


 

 
 
crédito das fotos: Sebastian Salé

Já sei, já sei... - a culpa é da impressora, que falhou justo na hora de botar o preço nos peixes vermelhinhos (os mais baratinhos, que vão pra barriga do povão). Mas note que essas coisas só acontecem em relação à comida que vai pra barriga do povão, pois na última foto dá pra ver que a impressora não falhou nos peixes mais caros (seja porque são mais caros, seja porque de fato não estão vencidos).

Para esses, que são iguais a nós, a Dilma é uma mulher honesta, honestíssima.

Nesse mesmo supermercado, se esse mesmo dono errar no troco, não vamos dar uma de otário e devolver as moedas a mais, pois, sabemos que se as moedas forem devolvidas, o caixa vai agradecer e colocar essas moeda no bolso dele...

Não denunciamos pois sabemos que não adianta nada - o cara "lá na SUNAB" não vai fazer nada. Ele quer ir embora mais cedo pra casa igual nós, não quer ter mais trabalho do que já tem e ter que autuar o supermercado e causar polêmica, pois logo vai vir um advogado esperto e dizer que um erro não configura dolo e que o lance do peixe foi sem querer e esse mercado é o responsável por alimentar um bairro inteiro e que fechar esse supermercado por uma bobagem como essa afeta o emprego de centenas de pessoas que dependem dele e mais outras milhares que dependem dele aberto para comer..... Enfim, vão tirar as cafajestagens de prateleira para demonizar o fiscal que desceu o cacete no supermercado que fez isso ou no fiscal que prendeu o motorista daquele caminhão ali em cima por "falsificação de documento público"...

Porque ao fim e ao cabo nós gostamos desses cafajestes, pois eles são nossos "amigos", jogam bem futebol, tem bom papo no bar, são engraçados, ajudam um mendigo de vez em quando - enfim, no grosso, no atacadão, são honestos, embora (quem nunca?) dêem essas pisadas de bola absolutamente justificáveis pois "estavam trabalhando".

Sei que estou sendo desonesto e filho da puta ao não dar direito de defesa para os flagrados, sei que sou um desonrado ao insinuar "sem provas" ou trazer provas de duas filhasdaputices para comprovar que a desonestidade é característica unânime de todos nós; sei que dizer que este é um país de gente desonesta é uma frase desonesta: mas ao concordar comigo leitor, ao concluir que eu sou o cara mais desonesto e filho da puta da Imprensa e do mundo, você só confirmará a minha tese:

SOMOS UM PAÍS HONESTO NA MESMA MEDIDA EM DILMA É UMA MULHER HONESTA, NO MAIS, SOMOS MESMO É UM BANDO DE FILHOS DA PUTA DESONESTOS - TODOS, A COMEÇAR POR MIM E TERMINAR POR VOCÊ, LEITOR DESONESTO!

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Idiotistão

Vera Cruz Times
por José da Silva

Dizem que os primeiros cem dias de um governo resumem de antemão os quatro anos vindouros.

Se isso fosse verdade bastariam cem dias.

Mas no caso de Donaldo Trombeta, seus cem dias da marmota são o resumo do que os próximos quatro anos não serão.

Dá-se início a Era do Idiotistão: administração por twitter cercada de telefonemas que se encerram com o novelesco "bater o telefone na cara", insultos e molecagem em redes sociais (tanto dele contra outros, quanto de outros contra ele) e medidas curiosas por decretos.

As mais famosas são as medidas contra estrangeiros, especialmente países de maioria muçulmana.

Aqui já se disse que quando precisamos diferenciar jihadismo de islamismo, temos que entender islamismo primeiro e ver como os jihadistas associam "morte" a "bem" e "ocidente" e "capitalismo" ao "mal", para que a Jihad Menor prevaleça como forma catequizante. Isso não é e nunca foi uma "questão de Estado" e não é na relação estatal bilateral que isso se resolve (seja no combate ao jihadismo que a parceria Putin/Al Assad fazem; seja no isolacionismo que promove Trump de forma marota). Esse buraco é muito, muito, muito mais embaixo...

E esse detalhe se tornou "a" desculpa: assim como o Muro do México, a batida de telefone na cara do Primeiro Ministro Australiano em uma conversa sobre a divisão da conta de refugiados, os desencontros em relação ao Pacto do Pacífico, as birrinhas com a China, a revisão da aproximação com Cuba, o apoio ao Brexit.

Em menos de um mês, todas as atenções foram voltadas para questões de política internacional e esses que hão de ser uns cem dias da marmota, transparecem uma estratégia: atacar a globalização; tornar novamente o país refém de meia dúzia de investment bankers gordos de Wall St.; inscrever alguns amigos na revolving door que existe entre a K Street e Wall St. E tudo isso de forma simples: começa-se fazendo o povo a perder o hábito de ler jornais.

Como fica agora aquele argumento da esquerdinha brasileira, que ficou anos e anos dizendo que a globalização era obra a direita estado-unidense? aquele papinho de que a globalização atende ao interesse e ao enriquecimento dos grandes grupos americanos? aquele papo insano de que a imprensa (sim, sempre ela) é a grande culpada por esse status de proteção dos interesses da direita contra o povo (que supõe-se ser naturalmente de esquerda, pois pobre tem que ser de esquerda)?

Pois bem - esses ataques estão na base dos sonhos antiglobalizantes latino-americanos populistas.

Aqui culpa-se a Globo e o Roberto Marinho, a Veja e o Estadão e usa-se o twitter para falar a verdade ao povo; lá, culpa-se a CNN e o NY Times, a Times e o Michael Bloomberg e usa-se, para falar a verdade ao povo o.... twitter!!!!

O populismo, como se disse aqui, não respeita lados, pois ele é essencialmente antiliberal e, paradoxalmente, antiprogressista.

The enemy of enemy is my friend - e nessa toada que já levou a colocar FDR, De Gaulle, Churchill e Stálin para um mesmo lado, ou pior, Stálin, FDR e Mao de um mesmo lado contra Chiang e todos contra o Japão, incrivelmente alinha Trump e... Putin!, ou Trump e Le Pen ou.... Trump e Duterte!!!

O bate-boca (sempre por Twitter - aliás, investigue-se se há investimentos pessoais de Trump ou relacionados em TWTR na Bolsa de NY...) com o representante do Irã, que daqui a algum tempo vai ser considerado o início da declaração de uma Guerra, marca também as inconsistências do Idiotistão inaugurado por Trump em relação ao jihadismo: está fora de sua lista uma das maiores ditaduras do planeta, baseada nas formas mais radicais de repressão a minorias e nas interpretações mais obtusas do islamismo e que abriga de forma livre membros de grupos no mínimo duvidosos, sem contar ser essa nação a terra Natal de gente como Osaba bin Laden - a monarquia absolutista e fundamentalista da Arábia Saudita (talvez a última monarquia absolutista ainda viva no mundo ao lado da Coréia do Norte, que finge ser uma república).

Ao manter-se em silêncio diante de Nigéria, Arábia Saudita, Egito, Omã e outras pérolas do jihadismo que ficaram de fora, o aspecto populista da decisão ficou óbvio. Trump protege o jihadismo que o beneficia e ataca o islamismo que não lhe fede nem cheira. E esse islamismo que não lhe faz cócegas traz algumas cerejas de jihadismo que de fato incomodam, mas não a ele e nem aos americanos: falamos da Síria, que tem no poder um grande amigão de Putin, o novo chapa de Trump, que é adversário de Erdogan, um enigma que foi poupado por Trump como se fosse um mar de democracia, que sofreu um golpe que alinhou Erdogan a Dilma (por iniciativa exclusiva dela...); ou o Sudão, que tem no poder um sem fim de sauditas ligados ao time das Arábias, protegés de Trump nesse caldo de sururu com Maomé e que geram infinitas dores de cabeça a Israel, um país que Trump detesta depender e adora falar mal privadamente.

Trump ainda comete a proeza de colocar dentre suas vítimas o México e o Iêmem, ajudando energúmenos de plantão a aproximá-los pela vitimização.

Seu discurso antiglobalização seguido de um ataque à Lei Dodd-Frank, permeados por falas improvisadas em uma língua que usa a sintaxe do dilmês e a morfologia do "ingrêis" mostra que o maior produto exportação brasileiro, a ignorância, obtém seu auge agora, nos trinados de Trombeta.


São Paulo

por Dom Fernandes III

A melhor maneira de homenagear um ateu é canonizando-o.

Esta semana alguns lembram os 20 anos de sua ausência, enquanto outros, como esta Folha da Madrugada, preferem lembrar os outros anos de sua presença.

Homenageamos todos aqueles que inspiraram este milenar meio de noticiar a vida e ele, São Paulo ou Saint Francis, está no cume.


Adverti o leitor que não dissesse: pior do que Ribamar não pode haver. Há Lula. Os petelhos, Erundina, a república do paraíba, do pé rapado, e, como diz a Veja, Lula se assemelha ao eleitor médio...
O que está aí é a escumalha, a alienação, a boçalidade no sentido físico da palavra. As elites brasileiras implodiram. E o país também vai implodir. Subvertemos a segunda lei da termodinâmica: entramos em entropia sem nos termos desenvolvido ao máximo. Saravá.
Paulo Francis, nascido Franz Paul Trannin da Matta Heilborn (1930†1997)

Batismo canino

Caderno de Assuntos Menores
por Eugênio Villas

Essa curiosa entidade de Chico I, enfrentando também a sua crise de receitas e a perda de colunas jovens para o Estado Islâmico, vem usando o Dia de Santo Antão para melhorar o cascalho.

Santo Antão, o "padroeiro da bicharada", teve lá seus dias de Luiza Mell e foi canonizado.

No seu dia, muitos membros do Apostolado de Chico Argentino saem batizando cães, gatos e periquitos.

Batize seu cão, no dia de Santo Antão!!!

É uma forma justa de defender uma graninha extra em tempos de sacolinha magra e dízimo dizimado.

Mas isso cria, convenhamos, uma idiossincrasia do Mundo Moderno, dessa Pós-Modernidade Líquida que até Baumann duvidaria: teologicamente os expertos de Chico criaram a figura do cão pagão.

O próximo passo será reescrever o Purgatório de Dante para criar alguma campanha de vacinação promovida por Pérsio, enquanto Virgílio se mantém ocupado com o nosso viajante de todos os Círculos.

Seria ridículo imaginar que Dante acabou ficando por lá porque foi mordido por cão raivoso pagão, não batizado no Dia de Santo Antão.

A próxima campanha da CNBB há ser "chega de cão pagão"...

Luto voluntário

por Dom Fernandes III

Desde o horrível acidente com o já saudoso Professor Zavascki, a Folha da Madrugada em conjunto com o Vera Cruz Times, fez período de luto voluntário.

Passada a euforia e a disforia do evento que envolveu uma pessoa atribulada com coisas importantes, este centro de jornalismo presta homenagens à pessoa, acima das coisas.


Há certos interesses individuais que, quando visualizados em seu conjunto, em forma coletiva e impessoal, têm a força de transcender a esfera de interesses puramente individuais e passar a representar, mais que a soma de interesses dos respectivos titulares, verdadeiros interesses da comunidade como um todo.
Teori Albino Zavascki (1948†2017)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

PTrump

Caderno de Política
por Cícero Esdras Neemias

Donald J. Trump acaba de fazer o seu discurso de posse.

Resumindo os seus 15 minutos de fala, ele se enveredou por momentos de puro populismo, se colocou como o legítimo representante dos pobres dos EUA, fez afirmações altamente nacionalistas, foi radicalmente antiglobalização, atacou as nações estrangeiras como as verdadeiras culpadas pelas crises que os EUA enfrentaram nos últimos tempos, disse que os políticos representam uma classe dominante que explorou esses pobres para beneficiar essa pequena casta, falou que vai investir em infraestrutura (pontes, estradas, aeroportos, portos, ferrovias) e que vai devolver o emprego para os americanos. Falou também em proteger a indústria local, falou nas campeãs nacionais americanas, falou em subsídios para combater o capital estrangeiro, falou na defesa das fronteiras contra traficantes... Falou em acabar com as diferenças entre "black, brown and white" pois todos tem o mesmo "red american blood".

Não disse absolutamente nada diferente do que disse Dilma Rousseff em suas duas campanhas, nada diferente do que vem dizendo Lula em sua campanha para 2018 (e que recicla o que havia dito na campanha pós-Mensalão), nada diferente do que vem dizendo Ciro para o mesmo 2018.

São incrivelmente todos farinha do mesmo saco.

O populismo não olha para a esquerda, nem para a direita; olha para si mesmo dizendo que ao olhar para si mesmo, vê-se em si mesmo o próprio povo. E quem está no centro total do universo em discurso populista, tem o mundo a sua volta, em 360º: esquerda e direta estão por todos os lados.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Olha lá... olha lá...

Caderno de Assuntos Menores
por Eugênio Villas

Eu "tô" falando...

Na tarde de hoje reclamaram do Dória por causa dos sacos de lixo biodegradável que ele mandou comprar...

Além disso, andam espalhando um "meme" em que o Dória fala com um morador de rua que está limpo (chegam a fazer um jogo dos 7 erros indicando que o mendigo que recebeu a atenção do Dória está com chinelos novos, cobertor novo, cabelos limpos, braços, antebraços e cotovelos limpos, unhas bem aparadas e sem sujeira, barba feita, rosto limpo, roupa limpa e tudo mais limpo e que por isso o mendigo seria uma "farsa", logo desmentida hoje: tratava-se, sim, de um mendigo limpo, apenas).

Paulistaninho, paulistaninha: qual o seu problema com a higiene?

Repito - por que não vão todos tomar banho???

Asseio

Caderno de Assuntos Menores
por Eugênio Villas

Lá em São Paulo, o tal Dória, prefeito eleito recentemente, foi zombado porque apareceu vestido de gari varrendo ruas.

Já na campanha, era criticado por seu aspecto "limpinho": aquele jeitinho de quem acabou de tomar banho de banheira de espuma com sais da Malásia (nem sei se tem sais por lá...), enxugou-se em toalha felpuda, passou perfume e alinhou o cabelo com bastante gel após encher o sapato e as meias de talco Granado.

Por estes dias, resolveu abrir guerra contra a imundície gerada pelas pichações que transformam a cidade num quarto de criança de 4 anos de idade bem mal-educada pelos pais, porque autorizada a rabiscar as paredes do próprio quarto. O resultado: picharam mais, emporcalharam em dobro e ousaram chamar sujeira na casa alheia de arte (porque, ao que eu saiba, ninguém picha ou pixa o próprio muro ou a própria casa, dentro ou fora - só é arte se a esculhambação artística é no muro alheio...).

Chegou a dar declarações, recebidas com o nariz torcido pela população paulistana, sobre a necessidade de asseio da cidade.

Pergunto - qual o problema que os paulistanos teriam em manter-se asseados, limpos e com um aspecto de, no mínimo, ter empenhado cuidados básicos com a higiene (não precisa de gel, mas pentear os cabelos é importante para evitar doenças)? Por que essa paixão em parecer sujo, mal cheiroso, vandalizado, esculachado, desgrenhado e descuidado? Por que tanta economia de tempo no asseio regal após no número 2? O que há com você, povinho de São Paulo?

A essa gente de Piratininga, recomendo: vá tomar banho!

domingo, 15 de janeiro de 2017

Uma máquina de necedades

Caderno de Domingo
por Dionísio Crátino

O Brasil é definitivamente uma terra de vacilões.

Vacilão, na linguagem popular, é aquele sujeito pretensioso que, ao imaginar-se em estado de louvor que espraia contaminação contemplativa-admirativa entre seus ouvintes e espectadores, nada mais faz do que cometer tolices.

Acha-se.

Esse traço da característica brasileira foi em grande parte formado, forjado, transformado e consolidado em nossa MPB, em especial no samba.

Sim: o samba é o grande responsável em tornar-nos um povo de "malandros-agulha" (aquele que se presta quando entra na linha ou leva o fio no buraco).

O samba foi festejado ano passado - fez 100 anos; aplaudiram Donga, pelo telefone.

Mas convenhamos: desde então, temos nos tornado um dos povos mais hábeis do mundo em imprudências. Há ainda quem diga que sofremos de "síndrome de vira-lata", mas, fato, essa síndrome apenas confirma o nosso vaticínio de sair por ai inventando estultices como aquela famosa "Deus é Brasileiro".

E me parece, tudo isso, se não começou no samba, com ele se formou (no sentido que os marxistas adoram), se consolidou e se fez como traço de nossa persona pública.

Não - não vou aqui dizer que o trio Chico-Caetano-Gil é formado na verdade por 3 chatos de crocs*, nem vou aqui abrir o Opróbio da Música Brasileira, que começa com a lambada da década de 1990, passa pelo Axé, analisa o sertanejo (universitário e analfabeto), o funk carioca, os irmãos Camello e tudo mais que se faz com 3 notas ou menos e 3 vogais no refrão (ou menos, oscilando entre "ô-ô-ô-ô-ô-ô", "i-ê, i-ê, i-ê, i-ê, i-ê, i-ê, i-ê, i-ê, i-ê, i-ê"), desaguando nos MCs de Youtube e em tudo mais que visita o Domingão do Faustão. Não vamos perder tempo isso. Já sabemos. Até quem ouve sabe. Os próprios artistas o sabem.

                                               * chato de crocs - versão pós-moderna do antigo "chato de galocha"

Eu quero falar do samba. Da origem de tudo isso que nos atormenta hoje: e não adianta querer separar o "joio do trigo" porque neste país celíaco, o samba é a fonte da juventude tanto dos intelectuais de plantão e dos chatos de crocs, quanto dos populares e da turma das vogais e do pancadão. Todos louvam o samba. O samba é o "amigo gente boa" de todos, é a unanimidade brasileira de que não pode falar mal.

Aquele mesmo estilo musical que pelo telefone já começou a cunhar essa mania de ser do brasileiro: somos abençoados, somos bons em tudo, o resto dane-se e quem não concorda é porque tem inveja do brasileiro.

O samba construiu essa imagem de "auto-estima" pré-adolescente no brasileiro em que só o brasileiro pode falar mal do brasileiro (desde que goste de samba) e se um "gringo" vem falar mal do Brasil.... ahhh, desanca-se o gringo até o último de seus rastros, seja ele uma espécie de parente de nossa miséria musical (como no caso da tal da Azealia Banks), seja ele o Homer Simpson, seja ele o grande Sly (para os íntimos, Silvester Stallone), seja ele o Maradona, seja ele o Che Guevara, fazendo piada sobre os "milagres brasileiros" (este, na verdade, recebeu a complacência dos jornalistas de esquerda por isso e a reprovação dos demais, mas não por isso).

E essa "autoimagem" arrogante de si mesmo, pelo telefone, começou assim:
Ai, ai, ai,
Aí está o canto ideal,
triunfal,
Ai, ai, ai,
Viva o nosso Carnaval sem rival
Aquela roda de macumba que deu origem ao samba já lançava a fórmula infalível: 3 notas, 2 vogais e uma simples frase para representar um sentimento de "somos f... pra caral...".

Ary Barroso fez a parte dele:
Isto aqui ô ô,
É um pouquinho de Brasil, iá iá
Deste Brasil que canta e é feliz,
Feliz, feliz
É também um pouco de uma raça,
Que não tem medo de fumaça ai, ai,
E não se entrega não 

Novamente: 3 notas, 3 vogais e... somos demais!!!

Benjor deixa a fórmula mais complexa:
Moro num país tropical
Abençoado por Deus
E bonito por natureza
(Mas que beleza)
Em fevereiro
(Em fevereiro), tem carnaval
(Tem carnaval,)
Tenho um fusca e um violão
Sou Flamengo e tenho uma nega chamada teresa 
Sambaby, sambaby,
Sou um menino de mentalidade mediana(pois é)
Mas assim mesmo, feliz da vida
Pois eu não devo nada a ninguem 


Temos mais de 3 notas (4, se minha conta não estiver muito equivocada), vogais entremeadas por consoantes e uma raison-d'etre para o "somos foda pra caralho" (#prontofalei): o país é abençoado por Deus (como se os outros não o fossem), "bonito por natureza" (sem precisar fazer esforço nem deixar ao menos essa natureza livre de lixo e fezes), tem fusca, tem violão (de péssima qualidade, que explica em parte porque os músicos são tão ruins), tem Flamengo e, mesmo sendo um imbecil (desculpe, "mentalidade mediana") sou feliz e (digo) que não devo nada a ninguém (por favor, me comprove com o seu extrato de banco, SERASA, declaração de IR e cadastro positivo que essa parte realmente está tudo bem).

A swingueira Fernanda Abreu também oferece a sua quota de contribuição na sedimentação dessa imagem do "somos foda pra caralho":
Vamo lá rapaziada
Todo mundo dançando
Vamo lá rapaziada
Todo mundo pulando
Vamo lá rapaziada
Todo mundo dançando
Dançando sem parar
O brasileiro é do suingue
O brasileiro é do baile
O brasileiro é de festa
O brasileiro tem carnaval no sangue
Tem carnaval no sangue
Eu digo
Deixa solta essa bundinha
Deixa solto esse quadril e grita
Brasil, Brasil

Brasil é o país do suingue

Apesar de sermos todos comunistas e defensores do operariado, do trabalhador, do trabalho, ninguém faz propaganda sambolística dizendo que "O brasileiro é do trabalho". Porque, na verdade, com tanta riqueza, oras, o brasileiro nem precisa trabalhar. Na realidade, nem deve trabalhar para poder aproveitar tanta coisa maravilhosa e tanta natureza divina. Seria, literalmente um pecado (de ingratidão) com Deus, que abençoou a terra e enfiou tudo o que é bonito por aqui, não separar ao menos umas 6 horas por dia para contemplar isso tudo, dançar, beber, louvar... enfim: ser brasileiro é um ato religioso diário de gratidão pelas belezas e riquezas.

Imaginem se alguém disser: não, as praias não são tão bonitas assim. Aliás, o litoral é bem regular, mediano, digamos, assim como a mentalidade do menino de Ben Jor. De fato, os EUA têm praias infinitamente mais belas do que as nossas. Austrália e Nova Zelândia nem se fale; Indonésia, Caribe, Colômbia, Venezuela, África do Sul.... Até o Japão tem praias mais bonitas que o Brasil enfim. Pegue qualquer ranking de praias bonitas e ache ao menos 3 brasileiras entre as 10 mais belas. A foto abaixo é de uma praia em Okinawa, que fica no Japão. Chama-se FuruZamami, que fica na Ilha de Zamami, que forma o arquipélago sul de Okinawa:



Continuem imaginando alguém dizendo: nossa natureza é vulgar e pobre, não tem nada de excepcional e há países com natureza bem mais rica que a brasileira (seja sob o aspecto da apreciação financeira dos recursos disponíveis, seja sobre o ponto de vista da diversidade), incluindo aqui neste quesito os EUA, a China, a Rússia, o Chile, o Haiti, o Congo, a Síria, o Líbano, Omã e por ai vai... Nossa riqueza é achar que somos ricos por natureza, isso sim.

E em relação a essa coisa da felicidade e da tristeza do brasileiro, ah... ai sim, temos um consenso: o brasileiro é o povo que mais ri e mais chora no mundo. Chora quando ganha, chora quando perde, chora quando vê alguém chorando, chora quando vê alguém rindo, ri quando ganha, quando perde, quando vê alguém chorando, quando vê alguém rindo; ri por nada, chora de tudo; chora por nada, ri de qualquer coisa. Resumindo, agimos como idiotas, como palhaços, com a facilidade que nem o Deputado Tiririca, profissional nessa arte do rir e chorar, é capaz de sintetizar.

Não temos nada demais. Somos um país comum, ordinário, "mediano", de "mentalidades medianas". Não somos ruins, mas também não somos bons. Somos um país "meia-boca" (em todos os sentidos), povoado de gente arrogante e mal organizada, que aprendeu com o samba a ser preguiça e vulgar. Isso o samba esconde, ou pinta com outras cores, com as cores da maquiagem do arlequim de ano todo.

Por isso o samba mente para nós. Nos dá um espelho falso, uma espécie de balança adulterada que esconde o quanto estamos abaixo do peso de quanto valemos de verdade.

O samba só foi bom e valeu alguma coisa quando não foi feito no Brasil (fisicamente, espiritualmente ou ambos): "diretamente daqui dos estúdios em Milão", como dizia Vinícius para Toquinho (logo depois das tardes em uma banheira no Uruguai), ou quando Tom esteve em Nova Iorque fazendo das suas e dizendo que Nova Iorque "era bom pra caralho, mas era uma merda" e "o Rio era uma merda, mas bom pra caralho", quando João Gilberto espantou o Carnegie Hall, quando Baden Powell cantou para a Rainha ou colocou queixos abaixo no Teatro Odeon em Paris, ou ainda quando a "Pequena Notável" (que nem brasileira era) colocou bananas entre as virtudes do samba entre Hollywood, Las Vegas e Broadway. Enfim, o samba só prestou quando foi jazz. No momento em que abandonou o jazz e voltou a ser samba, coincidentemente voltou ao seu estado de natureza de "mentalidade mediana" de que certificou Ben Jor e que se encontra hoje, como diria Daniella Mercury, "ladeira abaixo" (sei que ela mandou subir, mas, quem sobe essa ladeira um dia acaba descendo, como estamos hoje desde que o samba abandonou o jazz que lhe deu alguma dignidade e sentido).

Esse jeito de olhar o Brasil, que fez 100 anos recentemente, tem atrapalhado bastante o próprio Brasil. Atrapalhou até a permanência do próprio jazz no samba, que não resistiu à sua característica vadia e "mediana".

Mandar o samba pra puta que o pariu naquele terreiro de macumba de onde ele veio não é algo tão fácil. Mas bastaria que o Brasil passasse a ouvir o samba da mesma forma que o samba houve o Brasil.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O assunto da moda

Caderno de Economia
por Magnus Blackman

Fui eleito, na fila de jornalistas que estiveram no offsite, a escrever umas das primeiras resenhas do ano.

Procurei por assuntos da moda em economia e... nada!

A inflação voltou para o centro da meta (próximo de 6%) e o presidente Lulja disse que fará toda a força para ir para o centro da meta (próximo de 4%), mas a sua ideia constitucional brilhante lhe permitirá gastar por conta e inchar o Estado mais 6% (qual seja, 2% acima do que foi economizado)...

Enfim, nada no front da economia.

O assunto da moda é presídios, o que, cá entre nós, não é novidade nenhuma neste Diário. Falar sobre o impacto das reformas daqui de fora para os presidiários, para nós do Bola Preta, é assunto mais do que trivial.

Mas de repente um confronto de facções fez quase um Carandiru entre Manaus e Roraima. A esse evento podemos sim chamá-lo de Roraimada!!!

Foi uma Roraimada, como diria a maior filósofa da história das Galáxias.

96 é o número total, so far (praticamente um megadeth para os direitistas humanistas, but, so far, so good... so what?).

Isso, lá dentro do sistema.

Aqui fora o número é outro.

E como economista que gosta de estatísticas, o assunto da moda até que não me caiu mal. Temos todos os números daqui de fora para depois voltar a analisar o que está acontecendo lá dentro.

Sabe-se que no front econômico o período entre 2008-2015 fez catástrofes na economia brasileira, repetindo fórmulas peronistas de desgraça (ou castristas, alledistas, sandinistas ou o caralhista que o valha). A máquina pública virou um grande Garfield: um gato gordo, preguiçoso, mal educado, antiético, antigiênico, sujo, desonesto, guloso, irônico e, por que não?, muito engraçado (convenhamos, Rousseff discursando é de chorar de rir!).

A inflação explodiu nos dois dígitos, o desemprego se perdeu em taxas acima de 12%, juros subiram, o PIB derreteu e conseguimos, com números, transformar uma recessão em verdadeira depressão, com uma quase dominância fiscal e uma estagflação quase acadêmica (modelar, digamos).

Mas outros números do lado de fora também espantam.

Vejam esta tabelinha:


Este é o mapa dos homicídios ocorridos no Brasil mais ou menos no mesmo período em que a inflação, o desemprego e a máquina pública explodiram. Explode também nesse período os números referentes aos dados de corrupção (digamos, o valor rapinado em termos absolutos...): desaba a nossa média no relatório Transparência e, consequentemente, o nosso IDH (vai lá e olha, leitor - não vou ficar aqui recortando e colando tantos números em coincidência gráfica).

Pode ser apenas um dado de freaknomics, uma coincidência, um devaneio, uma correlação sem respeito a regras básicas de econometria, enfim, name it - mas os dados estão ai.

Relacione-os ou não, como quiser.

Do meu lado, quero apenas analisar esses números sem relacioná-los a outros (por enquanto).

Em outubro de 2016 o IPEA soltou um relatório curioso. Na análise do IPEA, refrasearam os números em observações óbvias: "Ao observar a variação das taxas de homicídio no Brasil nos últimos 11 anos, percebemos dois períodos distintos. Enquanto o primeiro deles, que segue até 2007, é representado por uma pequena diminuição da taxa de homicídio no Brasil, o segundo, que vai de 2008 a 2014, é caracterizado pelo crescimento dessa taxa".

O número total de homicídios no Brasil entre 2004 e 2014 é de 576.772 (homens, mulheres, crianças, pobres, ricos, negros, brancos, pardos, fardados, não fardados...).

Estima-se (são números preliminares) que em 2015 esse número bateu na casa dos 58.000 e que para 2016 esse número bata na casa dos 60.000.

Geramos, com essas estatísticas, numerologias curiosas: no Brasil, temos aproximadamente 7 assassinatos por hora, ou um homicídio a cada 7 minutos. Isso equivale dizer que no começo de sua leitura deste texto, alguém foi assassinado e ao final, outro o será. Para meu conforto como articulista prolixo, pelo menos ninguém morrerá assassinado no meio da leitura (exceto pelo tédio, que as estatísticas não capturam).

Projetando esses números para o globo e para a relatividade de nossa população, temos no Brasil uma taxa de mais de 29 mortes para cada 100 mil habitantes. São números que superam zonas de guerra, ISIS, Al Qaeda e aberrações que tais. Se abrangermos o mesmo período em que Síria se encontra em guerra (desde 2011), vamos ver que os jurisdicionados do ditador Al-Assad matarem-se entre si algo em torno de 256 mil pessoas e os jurisdicionados de Rousseff/Lulja+CV+FDN+PCC+Milícias fizeram lá as suas 279 mil vítimas.

Com isso, atingimos uma meta e dobramos, como nunca antes na história "destepaiz": somos campeões mundiais em "acidentes" (como diria Lulja) superando zonas de guerra (imaginem o dia em que entrarmos em guerra!!!).

Se somarmos ao total apurado até 2014 as perspectivas esperadas para os números de 2015 e 2016, iremos facilmente constatar que chegamos perto de 700.000 "acidentes". Se incluirmos o ano inicial do governo Lula, facilmente bateremos 750.000. Ao fim de 16 anos de período PT/PL[PR]/PMDB poderemos, se os números mantiverem essa tendência, bater algo em torno de 850 a 900 mil "acidentes".

Os 21 anos de regime militar autoritário (1964-1985) fizeram, segundo o relatório Brasil Nunca Mais complementado pela "Comissão da Verdade", um número de 434 pessoas. A ditadura chilena fez seus 40 mil mortos; a argentina (cuja nação nunca foi boa com números), 10 mil; a cubana, 136 mil.

A Guerra da Secessão fez 620 mil mortos, uma das mais sangrentas guerras civis da história.

E por ai vai... E por aqui fica...

Por outro lado, até o fim desse período (2014) em que analisamos os homicídios do lado de fora, o Brasil contava com uma população carcerária de... 563.526 pessoas presas (nesse número não entram as prisões domiciliares ou os presos em regime aberto, mas apenas aqueles que representam ao menos um ou dois marmitex por dia saídos dos impostos que pagamos).

Para cada pessoa morta do lado de fora (e uma ou outra no lado de dentro) no período entre 2004-2014, temos uma pessoa presa. De 2013 para 2014 tivemos quase 60 mil homicídios para 40 mil novos detentos (não entram nessa estatística os que eventualmente saíram do sistema, o que pode aumentar essa taxa de "detentos novos" especificamente para o ano de 2014).

Vejam no gráfico abaixo a evolução da população carcerária no Brasil:

Curiosamente, a "turma dos direitos humanos" que esteve no poder durante o governo PT, deu conta de fazer um aumento na casa dos 270% da população carcerária.

Homicídios, desemprego, população carcerária, inflação, recessão/depressão, máquina estatal, corrupção: são coisas que só a trinca Lula/Rousseff/Lulja fez pelo Brasil in a row.

Nesse período os negócios carcerários se estabilizaram, assim como os negócios entre partidos e empreiteiras.

Voltando ao cárcere agora, os dados mostram que 65% dessa população responde por tráfico/roubo/homicídio (demais crimes envolvem receptação, latrocínio, estupro e outros "afagos" ou "acidentes", como diria Lulja).

E para resolver esse problema todo o governo Lulja resolveu doar, por meio de 40 bibliotecas públicas, algo em torno de 20 mil volumes em livros para cadeias do Brasil afora (o que levou uma mãe de aluno a se indignar com essa doação de livros para os anjos do PCC, deixando de fora dessa benesse os travessos meninos e meninas que estudam na rede pública que só podem contar com o "kit gay" que dá propaganda para Bolsonaro e seus correligionários). Dizem até que a nova guerra entre PCC e CV/FDN poderá ter início por causa da distribuição desses livros - mandaram Marx para o PCC e os contos de Grimm para o CV e isso pode eclodir novos massacres entre essas "fracções" (facções com fricções).

Bem, apresentei os números, como bom economista e amante de estatística e não os analisei nem de dentro pra fora do cárcere, nem de fora pra dentro, do cárcere, do Brasil, da América, de onde quer que seja.

Apenas coloquei algo que torna qualquer discussão sobre 60 mortos, 33 mortos, 93 mortos, 96 mortos, 111 mortos, neste, naquele ou em qualquer presídio, um baita exercício de demagogia, de lado a lado.

Se o chefe mandar, eu retomo o assunto e analiso os números.

Do contrário, faça bom proveito, leitor, para discursos de aniversário a debates em mesa redonda sobre futebol - só não vá usar isso para os bate-papos de velório, por favor.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

País Celíaco

Caderno de Ciência do Corpo
por Doutor Pangloss

Celíaco: indivíduo que é portador da doença celíaca, que é uma espécie de transtorno intestinal gerador de inúmeros desconfortos, sobretudo a diarreia. É normalmente causada pela ingestão da gliadina e outras proteínas do tipo Triticeae, vulgarmente chamadas de "glúten" e presentes com ênfase em alimentos feitos a base de trigo.

O Brasil, se fosse um homem, seria celíaco.

Basta sua economia melhorar que o povo se empanturra de pão e bolacha (ou biscoito, como dizem nas praças de Salvador e Rio de Janeiro), sem contar na cerveja, fonte de bastante glúten por causa da cevada.

Tempos depois dessa ingestão exagerada, o povo "se caga todo" e tem que entrar em nova dieta: apertar o cinto, se aposentar mais tarde, trabalhar mais, comer menos e introduzir na dieta a salsicha, em substituição do pão, do macarrão, da cerveja e dessas coisas "gostosas" que comeu tanto quando o país ia bem.

A ciência medicinal e gastroenterológica do corpo dá ótimas dicas para a política, portanto: sendo o Brasil um país claramente celíaco, o Doutor Lulja, que preside a todos, deveria se abster de fazer coisas intrigantes.

Essa é a dica do ano de Doutor Pangloss.

Um novo Ano Novo

por Dom Fernandes III

Após reunirmos toda a equipe em um exílio voluntário (expressão preferida do Caderno de Política), qual seja, um offsite (expressão preferida do Caderno de Empresas), retornamos ao batente com a mesma vontade 2016: nenhuma.

No período de nosso fechamento para balanço muitas coisas aconteceram sem nada ter mudado: esse bando de desgraçados continua por ai assombrando quem quer se livrar deles.

Mas a vida é assim mesmo: uns param e outros continuam, outros nunca param e outros nunca nem sequer começam. Nós, pelo menos, começamos, continuamos, paramos, retomamos e de tudo um pouco, vamos experimentando essa dura tarefa de variar entre o ócio (concedido por benção estatal) e a labuta (restrita, item, por mesma ação santa estatal).

Em 2016 os temas da economia e da política dominaram as pautas de nosso ancestral Diário. Em 2017 esperamos tentar sair um pouco desses temas, se os próprios temas permitirem (qual seja, se política e economia se apaziguarem e deixarem de ser "notícia"). Se não se apaziguarem, também, que se dane.

O leitor deve estar notando que não há nada que nos orgulhe desde o retorno da Domus Fallus (ah, como é bom esse lugar, meu Deus!): enganou-se - ao menos voltamos de férias antes de Sérgio Fernando Moro e disso nos orgulhamos!

Feliz 2017!*



* - e como salientado antes, se não for feliz também que se dane...